Extensão e Sociologia Rural

Avaliação Participativa de Impacto de Tecnologias Sociais
Cisternas, Quintais Produtivos e Ações de ATER

Luiz Diego Vidal Santos

Universidade Federal de Sergipe (UFS)

Visão Geral

Tópicos Principais

  • 1 O que é avaliação de impacto e por que participativa?
  • 2 Métodos participativos de avaliação
  • 3 Indicadores para tecnologias sociais
  • 4 Estudo de caso: cisternas no semiárido
  • 5 Oficina prática: construindo uma avaliação
  • 6 Análise qualitativa dos resultados

Objetivo Central

Capacitar o estudante de Engenharia Agronômica a planejar e conduzir uma avaliação participativa de impacto de tecnologias sociais implantadas no meio rural, utilizando indicadores construídos com as comunidades.

1 - AVALIAÇÃO DE IMPACTO: CONCEITOS

O que é avaliação de impacto?

Definição

Avaliação de impacto é o processo sistemático de identificar as mudanças - intencionais ou não - que uma intervenção (projeto, política, tecnologia) gerou na vida das pessoas e nos sistemas em que estão inseridas.

Tipos de avaliação

Tipo Momento Foco
Ex ante Antes da ação Viabilidade e projeção
De processo Durante Ajustes e aprendizados
Ex post Após conclusão Resultados e impactos

Por que participativa?

A avaliação convencional (top-down) frequentemente:

  • Ignora o saber local
  • Mede apenas indicadores técnicos (produtividade, renda)
  • Não capta mudanças subjetivas (autonomia, autoestima, organização comunitária)
  • Produz resultados que não retornam às comunidades

A avaliação participativa envolve os beneficiários como co-avaliadores, não apenas informantes.

Base teórica

Extensão dialógica (Paulo Freire)

A avaliação participativa é coerente com a extensão freireana:

  • Comunidade como sujeito da avaliação
  • Diálogo como método
  • Indicadores definidos com e não para o público
  • Resultados devolvidos na forma de ação transformadora

Empowerment Evaluation (Fetterman, 2001)

Princípios:

  1. Melhoria - avaliar para melhorar, não para punir
  2. Apropriação comunitária - a comunidade conduz o processo
  3. Inclusão - todas as vozes, especialmente as marginalizadas
  4. Prestação de contas democrática - transparência nos resultados
  5. Capacitação - a comunidade aprende a avaliar

2 - MÉTODOS PARTICIPATIVOS

Ferramentas de coleta

Ferramenta Descrição Quando usar
Mapa Falante Desenho coletivo do território antes/depois da intervenção Início da oficina - aquecer e contextualizar
Linha do Tempo Reconstrução cronológica de mudanças percebidas Avaliar processos ao longo dos anos
Matriz de Indicadores Tabela com critérios definidos pelas famílias para pontuar mudanças Quantificar percepções de forma estruturada
Caminhada Transversal Percurso pelo território com observação participante Triangular informações visuais e verbais
Grupo Focal Discussão estruturada com 8-12 pessoas sobre temas-chave Aprofundar percepções qualitativas
Entrevista Semiestruturada Roteiro flexível aplicado individualmente Captar experiências pessoais e sensíveis

Construção participativa de indicadores

Processo em 4 etapas

  1. Pergunta geradora: “O que mudou na sua vida depois da cisterna?”
  2. Listagem livre: cada participante fala mudanças percebidas
  3. Agrupamento temático: facilitador organiza em categorias
  4. Definição de escala: grupo define como “medir” cada indicador

Exemplo de escala participativa

Nível Descrição (definida pelo grupo)
1 “Não mudou nada”
2 “Melhorou um pouco”
3 “Melhorou bastante”
4 “Mudou completamente a vida”

Categorias comuns de indicadores

  • Segurança hídrica - acesso a água limpa, frequência de falta
  • Segurança alimentar - diversificação da alimentação
  • Renda - venda de excedentes, redução de gastos
  • Trabalho - tempo gasto buscando água, divisão de tarefas
  • Saúde - doenças de veiculação hídrica
  • Organização social - participação em reuniões, associações
  • Gênero - empoderamento feminino na gestão da água

3 - ESTUDO DE CASO: CISTERNAS NO SEMIÁRIDO

Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC)

Contexto

  • Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA)
  • Mais de 1,2 milhão de cisternas de placa construídas
  • Capacidade: 16.000 litros cada
  • Público: agricultura familiar do semiárido

Tecnologia social

A cisterna de placa é considerada tecnologia social porque:

  • Construída com materiais e mão de obra locais
  • Transferência de conhecimento entre famílias
  • Respeita o contexto cultural
  • Solução de baixo custo replicável

Impactos documentados (ASA, 2023)

Indicador Antes Depois
Acesso à água potável 23% 89%
Doenças diarreicas (crianças) Frequente Rara
Tempo gasto buscando água 3-5 h/dia < 30 min/dia
Mulheres em associações 12% 47%
Quintais produtivos ativos 8% 62%

Exemplo de avaliação participativa

Comunidade fictícia: Riacho Seco (BA) - 35 famílias, cisternas desde 2018

Matriz de avaliação (resultado da oficina):

Indicador (definido pelas famílias) Nota média (1-4) Evidência qualitativa
“Água na seca” 3,7 “Antes dependia de carro-pipa, agora só peço quando a seca é muito longa”
“Comida mais variada” 3,2 “Plantei coentro, cebolinha, tomate - antes tudo vinha da feira”
“Saúde das crianças” 3,5 “Diminuiu as diarreias, a água é limpa”
“Trabalho das mulheres” 3,8 “Não carrego mais lata na cabeça, sobra tempo pra roça e reunião”
“União da comunidade” 2,9 “Quando construímos juntos, aprendemos a trabalhar em mutirão”

4 - OFICINA PRÁTICA

Planejamento da oficina (4 horas)

Momento Tempo Atividade Material
Abertura 15 min Apresentação, expectativas, regras de convivência Flip chart
Mapa Falante 30 min Desenho coletivo: “como era antes × como é agora” Papel kraft, canetões
Linha do Tempo 20 min Marcos importantes desde a implantação da tecnologia Barbante, cartões
Intervalo 15 min Café com bolo (cortesia) -
Construção de Indicadores 40 min Pergunta geradora → listagem → agrupamento → escala Cartões, tarjetas
Pontuação coletiva 30 min Cada família pontua os indicadores (votação com adesivos) Adesivos coloridos
Grupo Focal 20 min Aprofundamento de 2-3 indicadores mais relevantes Gravador (com permissão)
Devolutiva e encerramento 10 min Síntese visual dos resultados, próximos passos Cartaz-síntese

Fichas de campo

Ficha individual do facilitador

AVALIAÇÃO PARTICIPATIVA  -  FICHA DE CAMPO
Comunidade: ___________________
Data: ____/____/________
Família nº: ____
Nº de membros: ____
Tecnologia avaliada: ____________

INDICADORES (escala 1-4):
1. _________________ [ ]
2. _________________ [ ]
3. _________________ [ ]
4. _________________ [ ]
5. _________________ [ ]

Observações:
_________________________________
_________________________________

Ficha de síntese coletiva

SÍNTESE DA OFICINA
Comunidade: ___________________
Nº de participantes: ____
(homens: ____ mulheres: ____)

INDICADOR | NOTA MÉDIA | EVIDÊNCIA
1. _______ | _________ | _________
2. _______ | _________ | _________
3. _______ | _________ | _________

Pontos fortes da tecnologia:
_________________________________

Pontos a melhorar:
_________________________________

Recomendações do grupo:
_________________________________

5 - ANÁLISE QUALITATIVA

Análise dos resultados

Dados quantitativos

  • Estatística descritiva das notas por indicador (média, mediana, moda)
  • Gráfico radar com as dimensões avaliadas
  • Comparar notas entre subgrupos (gênero, idade, tamanho do lote)

Dados qualitativos

  • Análise de conteúdo (Bardin, 2011) das falas e anotações
  • Identificar categorias emergentes - temas não previstos
  • Triangulação - cruzar falas × observação × dados quantitativos

Princípios éticos

  1. Consentimento informado - explicar o propósito e obter autorização
  2. Anonimato - não vincular falas a nomes no relatório
  3. Devolutiva - retornar os resultados à comunidade
  4. Não-extração - a avaliação não deve beneficiar apenas o pesquisador
  5. Aprovação em CEP - para pesquisas acadêmicas (TCC, dissertação)

Exercício proposto

Atividade em grupo (4-5 alunos)

  1. Escolham uma tecnologia social implementada no seu município (cisterna, fossa biodigestora, horta comunitária, etc.)
  2. Planejem uma oficina de avaliação participativa seguindo o roteiro apresentado
  3. Definam pelo menos 5 indicadores com escala participativa
  4. Elaborem as fichas de campo
  5. Simulem a oficina com colegas da turma como “comunidade”
  6. Apresentem os resultados em formato de relatório técnico

Entrega

  • Formato: relatório PDF + fichas preenchidas
  • Prazo: 14 dias
  • Avaliação: planejamento (25%), indicadores (25%), simulação (25%), relatório (25%)

Referências

  • Fetterman, D. M. (2001). Foundations of Empowerment Evaluation. Sage.
  • Bardin, L. (2011). Análise de Conteúdo. Edições 70.
  • Chambers, R. (1994). Participatory Rural Appraisal (PRA). World Development, 22(9), 1253-1268.
  • ASA Brasil. (2023). Programa Um Milhão de Cisternas - Relatório de Impacto. Recife.
  • PNATER. (2010). Política Nacional de ATER - Lei nº 12.188/2010.

Obrigado!

Luiz Diego Vidal Santos

Universidade Federal de Sergipe (UFS)